Nossa
colunista conta como foi passar parte da adolescência sendo induzida a gostar
de brócolis quando o que ela queria mesmo era provar o gosto de chocolate das
meninas
Como seria beijar outra mulher? Embora a idéia fosse socialmente
torta – afinal, onde já se viu menina beijando menina –, me parecia
estranhamente pertinente, impressionantemente coerente, libidinosamente
paradoxal. E assim se passavam os anos. Nos intervalos, entre uma juvenil reflexão
e outra, vôlei, sessão da tarde e festinhas embaladas ao som de Grease, nas
quais eu experimentava aquilo que me era permitido: hi-fi e meninos. Por mais
que tentasse, não conseguia gostar. De nenhum dos dois.
O gosto dos outros
É como se você só pudesse comer brócolis sabendo que chocolate existe, mas não
foi feito para você – era proibidíssimo. Pior: você vivia rodeada por
chocolates. Chocolates formavam seu time de vôlei, eram seus melhores amigos,
ligavam regularmente. Você freqüentava o vestiário dos chocolates, por Deus
do céu. Mas não era permitido fazer nada além de olhar. Você era uma diabética
dentro da doceria. Ande com chocolate, mas coma brócolis, era o recado. E assim
se passavam os anos. Nada contra brócolis, mas eu sabia que chocolate devia ser
melhor. Tinha que ser porque, caso contrário, as pessoas não se beijariam tão
apaixonadamente nos filmes e nas novelas. Aquela gente certamente estava
provando de um gosto bem mais atraente do que brócolis. E então, quando você
já havia se conformado com a dieta do brócolis, descobriu que podia comer
chocolate escondido. E o mundo, nessa hora, deu uma parada.
Beijar outra mulher era de fato muito mais coerente do que supunha. E muito
melhor também. Aos 16 anos, eu tinha descoberto o sentido da vida. E ele
residia em tudo aquilo que se segue ao primeiro beijo. A descoberta do sexo, a
perda da inocência, não poderiam ter sido mais clandestinamente perfeitas.
Minha melhor amiga tinha acabado de se tornar minha amante e, por uma dessas
deliciosas ironias da vida, eu podia ir com ela ao banheiro quando bem
entendesse, dormir na casa dela todo fim de semana, dividir a cama com ela.
Sozinhas, descobrimos nossos corpos, nossos delírios, nossos mais bem guardados
segredos.
Beijar outra mulher era de fato muito mais coerente do que supunha. E muito
melhor
A história da primeira vez é mais ou menos essa para toda menina gay. De
repente, aquilo que tinha gosto de inalcansável e ilegal, se torna possível e
extremamente legal. O lado bom é que a coisa acontece com uma intensidade e com
um tipo de poesia que, talvez, heterossexuais desconheçam. O lado ruim é que a
paixão secreta, uma hora, cansa. Culpa, medo, dor, raiva, saudade, vergonha,
orgulho. Todos os sentimentos que começaram assim que o primeiro beijo
terminou. Todos os sentimentos com os quais convivi até ter coragem de me
aceitar, já balzaquiana.
Foi assim minha adolescência. Não muito diferente de qualquer outra, com
espinhas, dúvidas, anseios, certezas que rapidamente viriam a ser derrubadas e
a alucinação de achar que tinha, finalmente, entendido o sentido da vida. No
saldo geral, a emoção superou a dor, o delírio foi maior do que a culpa. No
final, a descoberta de que chocolate não é, quem diria, proibido, e a
expectativa de que, num futuro nem tão distante, poderíamos todos, mais do que
simplesmente aceitar, celebrar nossas diferenças. O sonho de um mundo sem
preconceitos, sem minorias, sem intolerância, sem proibições estúpidas.
Foi essa a única esperança que me guiou adolescência adentro. E, depois, para
fora dela.
Milly Lacombe